Diario de bordo em 3 partes – PARTE 1
Publicado por luisbicudo em Junho 19, 2009
Ocorre-me várias vezes à memória as palavras do Professor Milagre, quando nas aulas de Seminário de produção de filmes, fala do trabalho nas rodagens e na transformação das pessoas intervenientes em máquinas, ou seja, a distância absurda, que alguém que faça parte de uma equipa, mantém, transformando um trabalho artístico em mais uma manobra capitalista de virar frangos. Compreendo este problema e, não quero com toda a certeza, que me venha a acontecer a mim.
Por outro lado, tenho sentido em diversos projectos em que participo, principalmente nestes últimos dois documentários, a inversão deste sintoma: quero dizer, envolver-me demasiadamente nos filmes, seja criativamente na minha função, seja pensando fortemente neles, dedicando-me aos realizadores e resto da equipa, abdicando muitas vezes de mim próprio, não conseguindo evitar fortes ligações emocionais que acabam por me esgotar em todos os sentidos, e que em ultima análise acredito que prejudica o meu trabalho.
Se num dos casos O choro dos ilhéus haveria razões óbvias e plausíveis para esta ligação sentimental, pois sendo o argumentista dum projecto ligado à minha terra (Açores), a viagem foi realmente uma aventura emocional, uma espécie de Alice no país das maravilhas onde senti que toda a equipa mergulhou na gruta sem saber o que esperar, e de lá voltou sem saber o que fazer com o que encontrou. Para mim, pois claro, foi o reencontro com as minhas raízes e a minha infância, principalmente pelas festas do divino espirito santo, pois à já muitos anos que não me encontrava nas ilhas por altura destas festas.
No outro caso, o sítio de Catarredor, a estranha e mais alta aldeia no meio da serra da Lousã. Tal como a vida na montanha, foi duro fazer este documentário, estive lá duas vezes antes da rodagem com membros diferentes da equipa, e mais uma vez, encontrei na montanha uma espécie de refugio emocional, correr no meio da floresta fez-me um bem imenso na primeira vez que lá estive, ainda em abril, mas à medida que as pessoas se iam habituando a nós, dando-nos alguma confiança, descobri nelas todos os problemas difíceis de definir que me fazem sentir oprimido numa cidade como Lisboa.
Choro dos ilhéus
Eu acredito que apesar de tudo, a Laura é uma pessoa destemida, é preciso coragem para fazer um trabalho tão pessoal, foi preciso coragem para querer levar uma equipa da nossa escola e filmar um documentário na terceira. Confesso que da primeira vez que a Laura me falou da ideia, fiquei um pouco de pé atrás, ocorreu-me logo na imaginação todo o poder das ilhas, o quão bom e verdadeiro seria concretizar este projecto, na mesma medida em que senti que esta empreitada era deveras incompatível com os sistemas de produção da escola (em todos os sentidos), pensei “isto não vai resultar, quero muito fazer filmes nos açores, mas até que ponto é que a escola nos permite desenvolver um tema tão de autor, e de que maneira, com que forças me envolverei num projecto que parece ir contra corrente?” resumindo, a mim faltou-me a coragem e demorei até me comprometer com a Laura. A ideia ganhou forma e ânimo na minha cabeça após uma conversa com o Mário, ele mostrou-se interessado, quase apaixonado pela ideia, e aí senti o apoio necessário, dada a experiência e capacidade de produzir do Mário.
E assim me lancei na (contra) corrente, escusado será falar nas novelas sistemáticas do sistema (ESTC) (passo a redundância) entre argumento e realização.
Passo já ao meu papel no filme, que apesar de diluído, quero acreditar que foi importante, por mais não seja, ser aquele ilhéu que compreendia o choro da Laura. Numa primeira fase em que era preciso definir o que era o documentário antes do pseudo pitching, eu e a Laura conversamos bastante e chegamos aquela espécie de narrativa para o filme que consistia em acompanhar uma família de emigrantes de visita à terceira, visto daqui, em retrospectiva, esta foi uma óptima maneira de vender o nosso peixe, e quebrar o sistema, pois não foi nada disto que fizemos na terceira e ainda bem.
Neste pitching, que por sinal foi o que me correu melhor, com ou sem falsa narrativa, conseguimos com que o auditório percebe-se a essência da nossa busca e isso é que era importante e verdadeiro. Após este período o trabalho foi essencialmente da produção, mantive-me sempre próximo do Mário para o que fosse preciso e demos o espaço necessário à Laura, isto é, sem pressões.
Na terceira, o espaço dado à Realizadora mostrou-se constrangedor para a equipa, pois apesar da minha fé inabalável na Laura e neste documentário, nós andamos um pouco à nora nos primeiros dias, a falta de comunicação entre realização e restante equipa fez-nos a todos questionar o que estávamos a fazer ali.
Quando a Laura se foi abaixo depois de decidir não ir filmar a tal família, o Levi, com o seu dom de moderador, racionalizando sempre os problemas com sabias palavras, ajudou fortemente a comunicação do grupo. foi um processo gradual em que todos crescemos juntos e senti que éramos cada vez mais verdadeiros uns para os outros.
O sentimento colectivo de que tínhamos filme veio no primeiro dia de contacto com as festas de espirito santo, tão cedo não me esqueço da felicidade que ia em todos e em cada uma daquelas 6 almas.
Não quero revelar muito mais do que isto, a maior parte dos momentos foram tão fantásticos para mim que não merecem reflexão e fantástico aqui está tanto para a felicidade como para a tristeza (de vir embora).
O filme não está pronto, a Laura continua com dúvidas, eu já não tenho dúvidas, ajudei-a em grande parte da montagem junto da Patrícia, começamos de novo, acidente com o disco externo, começamos outra vez, é muito difícil colar todos aqueles planos fantásticos, mas não tenho dúvidas de que dará um bom filme, onde todos aprendemos muito, principalmente a fazer melhor para a próxima, e nós somos bem capazes de fazer melhor do que bom.
PS: Prometo tratar muito muito mal as condições de pós – produção da escola na PARTE 3
milagre23 disse
boa forma, e corajosa, de partilhar o diário de bordo
jorgejacome disse
“por mais não seja, ser aquele ilhéu que compreendia o choro da Laura. ”
Que bonito Bicudo!